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O homem que queria eliminar a memória

                Ignácio de Loyola Brandão escreveu um conto surpreendente chamado “o homem que queria eliminar a memória”, em que narra um diálogo entre paciente e neurocirurgião. Há uma questão muito interessante no texto: o paciente quer retirar um pedaço do cérebro, pois acredita que o ser humano seria muito mais feliz sem memória: “nenhuma lembrança boa ou ruim, nenhuma neurose, um mundo feliz, tranquilo, só de futuro”. O médico, confuso e vigiado pelos princípios legais e éticos, explica a impossibilidade da cirurgia e procura persuadi-lo da importância das lembranças. Tentativa em vão, o homem questiona: “quem quer saber de história? quem quer comprovar a existência?”. Ele é orientado para que volte outro dia. Os dois se despedem.

                O neurocirurgião se dirige à sala de operações e chama um amigo: “– Estou pensando em tirar um pedaço do meu cérebro, eliminar a memória. O que você acha? – Muito boa ideia. Por que não pensamos nisto antes? Opero você e depois você me opera. Também quero”.

                  O conjunto de experiências armazenadas na memória é essencial para a formação da identidade de uma pessoa. Resgatar as lembranças com facilidade é vital para compreender o mundo à nossa volta. Além disso, a memória também possibilitou a evolução das espécies: cientistas acreditam que a designação de um compartimento específico no cérebro para guardar as más recordações foi uma estratégia criada nos tempos em que a humanidade enfrentava animais e intempéries climáticas para sobreviver. A nova rede de neurônios criada auxiliava a identificar e a reagir mais rapidamente às ameaças e, com isso, os que não possuíam uma memória eficiente eram eliminados pela seleção natural. Entretanto, embora a maioria de nós saiba que a memória é imprescindível, todos já desejaram esquecer as lembranças que só causam dor e lembrar apenas dos momentos felizes. O conto “o homem que queria eliminar a memória” promove uma reflexão sobre os anseios do ser humano em manipular as recordações com o objetivo de tornar o dia-a-dia livre de medos e preocupações.

                   A possibilidade de manipular a memória não se restringe aos filmes e à literatura. A ciência está desvendando os mecanismos biológicos que nos permitem lembrar e esquecer e já prevê aplicar esses conhecimentos em terapias que apagam da mente experiências ruins ou melhoram a capacidade de memorização. Pesquisadores da Universidade de Montreal publicaram recentemente um dos estudos mais concretos em relação à manipulação da memória: “Metyrapone administration reduces the strength of an emotional memory trace in a long-lasting manner”. Os glicocorticóides possuem papel fundamental no resgate da memória e, partindo deste princípio, eles demonstraram que o uso do remédio metirapona, potente inibidor dos glicocorticóides, ajuda o cérebro a apagar a parte ruim das recordações. Evitá-las ou pelo menos fazer com que ressurjam de modo menos assustador, seria, portanto, uma maneira de poupar a pessoa de um novo sofrimento. Com essa perspectiva, abrem-se novos caminhos para tratamentos de doenças geralmente marcadas por eventos traumáticos, como a ansiedade, o estresse pós-traumático, a síndrome do pânico e a depressão.

                   Em relação à aquisição e a manutenção da boa memória existem estudos muito interessantes. Pesquisadores da Universidade de Melbourne publicaram recentemente um artigo que trata da eficácia da testosterona no aprimoramento da memória de mulheres pós-menopausa: “Testosterone improves verbal learning and memory in postmenopausal women: Results from a pilot study”. Está comprovado que a maior função da testosterona é estimular anualmente o crescimento do adereço subnasal tipicamente masculino, mas a pesquisa demonstrou que mulheres que recebiam doses diárias de testosterona tiveram resultados muito melhores nos testes de memória. Estima-se que cerca de 60% das mulheres apresentem falhas na memória durante a fase de transição para a menopausa, o que torna o estudo extremamente relevante do ponto de vista epidemiológico.

                  Os possíveis benefícios da interferência na memória são evidentes. Entretanto, é preciso analisar as informações com cautela. As pesquisas estão no início e os efeitos colaterais ainda não são conhecidos. Além disso, o valor dos tratamentos seria inacessível para a maioria da população e apenas uma parcela da sociedade seria beneficiada, negligenciando ainda mais o princípio da igualdade de competição. Quanto à tentativa de eliminar as memórias desagradáveis, há um ponto muito relevante à ser discutido: o risco de intervenção em outras memórias. É de conhecimento da ciência que as lembranças não ficam guardadas em compartimentos isolados no cérebro. Elas estão fortemente interligadas e, muitas vezes, se confundem. Posso tentar apagar uma recordação ruim relacionada à minha mãe, mas essa tentativa pode afetar outra também associada à ela, mas boa.

              Acredito que, até o presente momento, a melhor escolha para o cuidado com a memória seria investir no ômega 3, na prática de exercícios físicos e na meditação. Para eliminar as angústias memoriais nada melhor que o tempo e uma boa dose de amor. Neurocirurgia ou medicamentos, descarto. Prefiro minha mãe, minha memória muitas vezes falha e vaga, mas que, ao menos, me coloca em contato com o mundo.

Paulo Crestani

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Este blog é a versão online do jornal do Centro Acadêmico Sarmento Leite (Medicina UFRGS) - O Centro Acadêmico mais antigo do Brasil!

5 comentários em “O homem que queria eliminar a memória

  1. Perigoso! Se um fármaco seletivo que apague memórias ruins (se é que ele pode existir!) sofrer o mesmo destino do uso indiscriminado de antidepressivos podemos ter consequências gravíssimas, no meu ponto de vista. Imaginem só: para cada atitude que tomamos em nossa vida, imaginamos que tenhamos uma reação satisfatória como resposta, o que nem sempre acontece. Mas essas progressivas frustrações ao longo da vida não são ruins, como se pensa: é só a partir delas que podemos perceber que nem tudo acontece como a gente quer, o que nos leva a amadurecer. Apagar memórias ruins – indiscriminadamente, repito -, nos leva a estar fadados a permanecer na infância para sempre.

    Ótimo texto, Paulo!
    Lucas Primo

  2. Esta problemática exposta no texto, com toda certeza, já passou pela psique de qualquer sujeito à beira de um ‘ataque de nervos’. Muito bom o texto, começou com a aplicação da crônica à realidade fática, e terminou, romanticamente, a lá Jim Carrey em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças haha…

    Beijo Paulo! Adorei.

  3. Fascinante assunto esse que foi levantado – a memória! Grandioso desde seus aspectos mais filosóficos até os biomoleculares! Só me resta indicar um livro para interessados: “A arte de esquecer” – Ivàn Izquierdo, se é que todos os interessados já não leram!

    Meus cumprimentos pelo texto!

    Olavo Gastal

  4. eu não gostei porque eu queriaa saber a história

  5. That’s a nicely made answer to a challenging quetsoin

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